Jan 11 2011

Biografia de Domingos Rebêlo (1891-1975): São Miguel de fim do Séc. XIX

Published by at 22:09 under Biografia

A cidade de Ponta Delgada, onde Domingos Rebêlo surge, na última década do século XIX, caracteriza-se por uma sociedade rural em transição para uma urbanidade incipiente, numa ilha de São Miguel remota, quase que perdida no meio do oceano Atlântico, onde as novidades de Lisboa, metrópole distante, demoram a chegar, nos navios que, com frequência mensal, tem que atravessar meio oceano para alcançar o arquipélago dos Açores.

 

Arquipélago dos Açores

Nada faz adivinhar, nos passos ainda trémulos do pequeno Domingos, que os seus horizontes se vão mais tarde alargar para além do limite que o mar impõe. Pela cidade cruzam as ruas pessoas a pé, raras delas a cavalo, alguns transportados em cima de burro. Possuímos uma visão de como era a cidade de Ponta Delgada, e a ilha de S. Miguel, pela perspectiva de estrangeiros que ali chegavam. Marinheiros, turistas, botânicos, geólogos,vindos da Europa ou dos Estados Unidos da América. No interessante livro de João Cabral Leite, «Estrangeiros nos Açores do séc. XIX Antologia», este diz-nos: “ Atraídos por um clima ameno, por uma paisagem fascinante com os seus vales e montanhas de vegetação luxuriante, por um modo de vida pacato convidando a um delicioso e completo repouso, muitos destes viajantes encontraram nos Açores o refúgio ideal contra os «perigos da civilização». Outros, entre os quais podemos contar cientistas de renome, atraídos por uma fauna e flora praticamente desconhecidas, uma constituição geológica peculiar, fenómenos vulcânicos aguardando o interesse da ciência, fizeram dos Açores um ponto de paragem para os seus estudos, investigações e pesquisas, na tentativa de fornecerem novas descobertas ao mundo da ciência”.

 

Mapa da ilha de São Miguel - 1845

O norte-americano Lyman Weeks, em 1882, faz a seguinte  descrição de S. Miguel: “História à parte, o viajante que hoje visita os Açores encontra uma terra de carácter vulcânico, de costas rochosas, ásperas, escabrosas e escarpadas, contra as quais as ondas do oceano batem ás vezes com fúria terrível. A sua gente ainda se apega tenazmente a costumes fossilizados e acha-se profundamente sepultada num passado morto, do qual não tem poder, nem grande desejo de se libertar. As belezas naturais, a liberalidade e a liberdade estão em vivo contraste com a pobreza, a degradação e a opressão das massas; todavia o canto e a dança, as procissões religiosas e os dias de festa deleitam o camponês jovial e de coração simples; a vida é um círculo de preguiça, de sestas, de conversas intermináveis. É uma terra atravessada e cortada em todas as direcções por gigantescas ravinas, marcas e cicatrizes de muitos abalos de terra; e todavia ostenta luxuriante vegetação tropical. Os campos estão verdes durante todo o ano; a laranja, a banana, o figo, a goiaba e outras frutas tropicais crescem com abundância; as vertentes dos montes e dos vales reproduzem, em eco, as notas suaves de miríades de cantores e o ar está impregnado da fragrância das flores. É um país onde as tintas da terra e as cores do céu ainda que de vário colorido, rivalizam em beleza”.

 

São Miguel - Casa rural em Feteiras

Traje típico de São Miguel

Capote açoreano

Caldeira das Furnas - Ilha de São Miguel

Do inglês W. R. Kettle, possuimos a curiosa visão de Ponta Delgada, publicada no jornal The Field em Londres, em 1887: “Ponta Delgada, a cidade e porto principal de S. Miguel, e terceira em importância de Portugal, jaz no lado sudoeste da ilha. O seu porto é defendido por um sólido quebra-mar, agora quase completo. Os navios, mesmo os grandes em dimensão, tem aqui seguro abrigo contra os ventos, e os que demandam o porto com avaria, para refrescar ou tomar carvão, são isentos de todo e qualquer direito. Não experimentei dificuldades na alfândega com a minha bagagem, e um companheiro de viagem, com um grande fornecimento de aparelhos e drogas (sic) fotográficas, teve mui pouco incómodo com os delicados empregados portugueses, tendo sómente a pagar uma pequena quantia por volume. Vista do mar, a cidade é muito formosa, com os seus campanários, casas caiadas de branco, tendo por fundo os jardins e quintas de laranjeiras, com picos e outeiros cultivados no último plano. Ao desembarcar não há motivos de desilusões. Os edificios são sólidamente construidos de pedra vulcânica, ainda que poucos haja, de real beleza, como espécimen de arquitectura. As ruas sofrivelmente largas e limpas, calçadas com blocos de lava, são alumiadas a gás e petróleo. Entre as várias modas, a mais notável é o enorme capote e capelo que muitas mulheres usam envolvendo-as inteiramente, com uma originalidade rídicula”.

 

Largo da Matriz - Ponta Delgada - Década de 1890

Ponta Delgada - Igreja Matriz - Década de 1890

Ponta Delgada - Largo da Matriz - 1896

Ponta Delgada - Portas da cidade - Década de 1890

Ilha de São Miguel - Cidade de Ponta Delgada

 

 


 

2 responses so far

2 Responses to “Biografia de Domingos Rebêlo (1891-1975): São Miguel de fim do Séc. XIX”

  1. Aurélio Aguiaron 28 Jan 2011 at 15:13

    sou Aurélio Aguiar, responsável por uma loja que se situa no largo das caldeiras das furnas. Neste momento sinto que falta alguma informação para os turistas e algumas imagens da evolução do local. de forma as pessoas terem uma melhor prespectiva do que eram os banhos termais nas furnas e toda esse culto. desta forma agradecia se possivel que me fosse autorizado e facultado uma digitalização de uma imagem das caldeiras das furnas apresentada neste site. No placar sera identificado o autor e a sua autorização.

    Aguardo atentamente a vossa resposta

    Aurélio Aguiar

  2. stpaul365.comon 19 Jan 2015 at 17:23

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