Out 20 2011

Biografia de Domingos Rebêlo (1891-1975): João Soares Cordeiro e a 1ª Exposição de Domingos Rebêlo

Published by at 17:22 under Biografia

Dos professores que Domingos Rebêlo conheceu no Colégio Fisher, aquele que teve maior influência sobre o seu futuro artístico foi João Soares Cordeiro. Que dava aulas de talha no Colégio Fisher e na Escola Velho Cabral.

 

Domingos Rebêlo (aos 8 anos), colega, e João Soares Cordeiro.Pormenor de foto de grupo. Colégio Fisher, Ponta Delgada,1900.(colecção particular)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vários anos depois de ter sido seu aluno, Domingos Rebêlo irá retratar , em 1912 (época em que estudava pintura em Paris), João Soares Cordeiro, na que é considerada uma das suas melhores pinturas.

 

Domingos Rebêlo. Retrato de João Soares Cordeiro (pormenor).Óleo sobre tela, 1912 (Museu Carlos Machado)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É da  autoria de João Soares Cordeiro a obra de talha realizada na sala de jantar do Palácio Jácome Correia (também chamado de Palácio de Santana), actual sede do Governo Regional dos Açores, em Ponta Delgada. Com madeiras exóticas trazidas do Brasil, João Soares Cordeiro concebeu e esculpiu, com uma equipa de artesãos, durante vinte anos, a impressionante decoração e mobiliário com motivos da natureza, a pedido do Marquês Jácome Correia.

 

João Soares Cordeiro.Sala de jantar do Palácio Jácome Correia.Ponta Delgada,1988.Foto José Alberto Silva

João Soares Cordeiro.Sala de jantar do Palácio Jácome Correia (pormenor).Ponta Delgada,1988.Foto José Alberto Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde cedo, João Soares Cordeiro observou o talento que Domingos Rebêlo demonstrava nos desenhos e pinturas que fazia no Colégio Fisher, e que o distinguia no meio dos seu colegas. A maioria das pinturas , a aguarela e a óleo, eram feitas a partir de gravuras a preto e branco que Rebêlo conseguia obter. Acompanhando com interesse a evolução do aluno, anos mais tarde, num livro por si escrito com o título de “Cavacos de Entalhador”, dirá de Domingos Rebêlo: “Domingos Maria Xavier Rebelo é o nome de uma criança que vem, há tempo, manifestando quanto é extraordinária a sua vocação para a sublime Arte do divino Rafael. Mexer em pincéis, contemplar quadros, e ouvir falar sobre pintura, foi sempre, desde a sua idade mais infantil, o seu maior prazer, o seu maior entusiasmo. Aos oitos anos, já pintava, e se nessa época ele ainda não sabia destacar as suas personagens além da superfície da tela, hoje (1905) não lhe sucede o mesmo, pois já lhes dá relevo, movimentado, e expressão. Tendo feito incontestáveis progressos, os seus últimos trabalhos assim o atestam.

 

Domingos Rebêlo. Raposa, óleo sobre tela. 1905 (colecção particular)

 

 

Domingos Rebêlo. Retrato de velha com capa, óleo sobre tela. 1906 (colecção particular)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vi dois pequenos quadros, pintados por ele, a partir de gravuras, que tem muito merecimento. É para admirar como o jovem pintor soube colorir o quadro, simplesmente por intuição, pois a gravura é despida de cores. E ele nunca teve quem lhe explicasse, como é que elas se empregam, nem tão pouco, como se misturam as tintas da paleta. Também, nunca estudou desenho de figura, apenas tem umas pequenas noções de desenho geométrico. E contudo, não copiou servilmente o desenho do grupo de crianças, que venho referindo, aproveitou apenas o assunto, modificando mais ou menos conforme lhe aprouve, e as diferentes posições dos petizes, particularmente onde enleia talento próprio. Não se explica doutra forma o fazer o que ele faz, sem ter conhecimentos artísticos, e contando apenas 13 anos de idade.”

Este texto fez parte da primeira apresentação pública sobre Domingos Rebêlo,  que João Soares Cordeiro publicou no jornal “Diário dos Açores”, no dia 1 de Setembro de 1905, para divulgar a exposição que organizou, nessa data, com pinturas a óleo do seu aluno. Escolheu um lugar central da cidade de Ponta Delgada, junto à Igreja Matriz, na Rua Nova da Matriz (actual Rua António José de Almeida), na loja de fazendas de Duarte Cardoso, apelidada de “Louvre Michaelense”. E aí, foram expostas nas vitrines as pinturas, uma série de pequenos quadros a óleo, na primeira Exposição de Domingos Rebêlo, aos 13 anos de idade, e sem qualquer formação artística.

 

“Louvre Michaelense”1. Ponta Delgada, 2009.Foto Jorge Rebêlo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Louvre Michaelense”2. Ponta Delgada, 2009. Foto Jorge Rebêlo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta exposição pretendia chamar a atenção sobre o potencial do jovem artista, tal como nos diz João Soares Cordeiro, no final do seu texto para o “Diário  dos Açores”: “É pena, que os pais de tão prestimosa criança, não possam fazer um sacríficio, para a educação que ele precisa, a educação que se administra nas Academias de Belas Artes. Bem sei que o curso completo de pintar é dispendioso, pois consta de oito anos de Escola, levando para lá exames de português e francês, e que os pais não são ricos. Mas é provável que apareça por aí, algum benemérito inteligente que os auxilie, aproveitando-se assim uma das mais belas organizações de artistas, que tem aparecido, na certeza de que presta um grande serviço, não sómente à criança, mas também a S. Miguel, terra de onde verdadeiros artistas não há número que chegue a meia-dúzia.”

Afortunadamente para o jovem Domingos Rebêlo, a iniciativa foi um sucesso, pois despertou a atenção dos Condes de Albuquerque, seus futuros mecenas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No responses yet

Trackback URI | Comments RSS

Leave a Reply